Mounjaro e apneia do sono passaram a ser associados com mais frequência após a popularização do uso da tirzepatida para perda de peso. Muitos pacientes relatam redução do ronco, melhora do cansaço diurno e até a esperança de “curar” a apneia apenas com o emagrecimento.
Mas será que essa melhora é realmente consistente do ponto de vista científico? Ou estamos diante de um benefício indireto, com limites bem definidos? É isso que vamos esclarecer com base na fisiologia da apneia e nas evidências atuais.
O que é a apneia obstrutiva do sono?
A apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio respiratório caracterizado por colapsos repetidos das vias aéreas superiores durante o sono. Esses colapsos levam a pausas respiratórias, queda da oxigenação e microdespertares frequentes.
O resultado é um sono fragmentado, não reparador, mesmo quando a pessoa dorme muitas horas. Segundo a American Academy of Sleep Medicine, a apneia é subdiagnosticada e progressiva quando não tratada.
Qual é a relação entre obesidade e apneia do sono?
A obesidade é um dos principais fatores de risco para a apneia, mas não o único. O excesso de gordura na região do pescoço e da língua aumenta a pressão sobre a faringe, favorecendo o colapso da via aérea durante o sono.
Além disso, a obesidade altera o controle neuromuscular da respiração e aumenta a inflamação sistêmica. Por isso, a perda de peso costuma reduzir a gravidade da apneia — mas raramente a elimina por completo.
O que é o Mounjaro e como ele atua no organismo?
O Mounjaro (tirzepatida) é um medicamento que atua como agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, hormônios intestinais envolvidos no controle do apetite, saciedade e metabolismo da glicose.
Seu principal efeito clínico é a redução significativa de peso corporal, além da melhora do controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2. Ele não atua diretamente nas vias aéreas ou na respiração durante o sono.
Mounjaro pode melhorar a apneia do sono?
A melhora observada em alguns pacientes ocorre de forma indireta, por meio da perda de peso. Estudos mostram que uma redução de 10% do peso corporal pode diminuir o índice de apneia-hipopneia (IAH), especialmente em casos leves a moderados.
No entanto, a literatura científica deixa claro: perder peso melhora a apneia, mas não substitui o tratamento específico. A anatomia das vias aéreas, o posicionamento mandibular e o controle neuromuscular continuam sendo determinantes.
O que dizem os estudos científicos?
Pesquisas publicadas no PubMed e dados do National Institutes of Health indicam que intervenções para perda de peso reduzem a gravidade da apneia, mas raramente levam à remissão completa.
Mesmo após emagrecimento significativo, muitos pacientes continuam apresentando apneia residual, especialmente durante o sono REM e na posição supina (de barriga para cima).
A apneia do sono pode desaparecer apenas com o emagrecimento?
Na prática clínica, isso é incomum. A apneia é uma doença multifatorial, envolvendo:
- Anatomia craniofacial
- Tônus muscular da faringe
- Posição da língua e mandíbula
- Controle neurológico da respiração
O peso corporal é apenas uma parte do problema. Por isso, confiar exclusivamente no Mounjaro para tratar apneia pode gerar uma falsa sensação de segurança.
Qual o impacto da apneia não tratada no sistema cardiovascular?
A apneia do sono provoca hipóxia intermitente, ativação do sistema nervoso simpático e aumento do estresse oxidativo. Esses mecanismos elevam o risco de:
- Hipertensão arterial resistente
- Arritmias cardíacas
- Infarto do miocárdio
- AVC
Estudos internacionais mostram que tratar apenas o peso, sem corrigir a obstrução respiratória, não elimina esses riscos cardiovasculares.
O CPAP continua sendo necessário mesmo com perda de peso?
Em muitos casos, sim. O CPAP permanece o tratamento padrão para apneia moderada e grave porque atua diretamente impedindo o colapso da via aérea.
No entanto, uma parcela significativa dos pacientes não se adapta ao uso do CPAP, seja por desconforto, ruído ou dificuldade de adesão a longo prazo.
O aparelho intraoral é uma alternativa viável?
Sim. O aparelho intraoral para ronco e apneia é uma alternativa baseada em evidências para pacientes com apneia leve a moderada ou para aqueles que não se adaptam ao CPAP.
Ele funciona avançando a mandíbula, estabilizando a língua e mantendo a via aérea aberta durante o sono. Quando bem indicado e personalizado, pode reduzir significativamente o ronco, o IAH e melhorar a oxigenação.
Mounjaro pode ser parte do tratamento, mas não o tratamento completo?
Exatamente. O Mounjaro pode ser um coadjuvante importante, especialmente ao reduzir um fator de risco relevante: a obesidade.
Mas a apneia do sono exige avaliação específica, geralmente com polissonografia, e um plano terapêutico que trate diretamente a obstrução respiratória.
Conclusão: Mounjaro ajuda, mas não resolve sozinho
Mounjaro e apneia do sono têm sim uma relação indireta, mediada pela perda de peso. Em muitos pacientes, isso resulta em melhora dos sintomas e redução da gravidade da doença.
No entanto, a apneia não deve ser tratada apenas como um problema de peso. Ignorar a necessidade de diagnóstico e tratamento específico pode manter riscos cardiovasculares e metabólicos silenciosos.
Cuidar da apneia é cuidar da respiração durante o sono — e isso vai além do número mostrado na balança.
FAQs – Mounjaro e apneia do sono
Não. A relação é indireta, via perda de peso.
Não necessariamente. Muitos pacientes ainda precisam de tratamento específico.
Podem melhorar, mas não garantem eliminação do ronco.
Não. A apneia raramente é curada apenas com emagrecimento.
Sim. O diagnóstico e o acompanhamento devem ser objetivos.
Referências
Chirinos JA et al. Obesity, metabolic syndrome and sleep apnea.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29222168/
American Academy of Sleep Medicine (AASM)
https://aasm.org
National Institutes of Health – Sleep Apnea
https://www.nhlbi.nih.gov/health/sleep-apnea
Punjabi NM. The epidemiology of adult obstructive sleep apnea.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18250205/
Foster GD et al. Weight loss and obstructive sleep apnea.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19920216/
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